terça-feira, 16 de setembro de 2014

Qual seu número?

“Qual o seu número?” Pergunta que sempre queremos fazer, mas que nunca gostamos da resposta. Dúvida cruel, angústia da insegurança, ponto de interrogação que pode ser parênteses, ou – dependendo da situação – um ponto final na relação. Quantos já cruzaram a geografia do teu corpo? Quais marcaram mais? A ignorância realmente é uma benção.
Como é difícil aceitar que a pessoa com quem você está se relacionando existia antes do primeiro encontro. Só consigo lembrar da música do Luis Miguel, pedindo que "No me platiques más", afinal “antes de conocernos, se que has tenido horas felices aun sin estar conmigo”. Duro imaginar que alguém a fez feliz algum dia. Sexualmente, inclusive.
O que é pior? Ignorar que ela já foi tocada por outro homem e ficar imaginando que esse amor, hoje entregue a mim, já foi de um coração qualquer. Ou então conversar abertamente, revelar histórias, dividir experiências e confirmar que não fui o único a arrancar um sorriso daquela linda face. Triste indecisão. E a disputa machista de que o homem deve ser mais experiente. Ele sempre aumenta um pouquinho, com medo de parecer ingênuo. Ela, dependendo do caso, diminui levemente a conta para não espantar o seu amado. Outras vezes, a conversa é telepática, existe um limite do que pode ou deve ser perguntado. Palavras são desnecessárias.
Lógico que os relacionamentos passados nos fazem aprender com os erros. Amadurecemos e construímos a nossa felicidade, exatamente pela oportunidade de fazermos tudo diferente. Mas quando o sentimento cria forma, queremos uma exclusividade atemporal, que atinja presente e passado. É como se eu quisesse ouvir que ela só esteve com alguém antes, pois não teve a chance de me conhecer. E utilizamos isso para nos enganar, amenizando a raiva de não ser onipresente, de não ser o primeiro e o último, de não velar seu sono todas as noites, de não poder abraçá-la nos momentos em que ela mais precisou. O destino nos cruzou mais tarde, sem dúvida na hora certa, mas explica isso pra impulsividade do corpo.
Sim, tive minha vivência também, cometi muitas loucuras, algumas das quais não posso revelar nem a mim mesmo. É justo então avaliar que ela não deveria ter vivido o que viveu, sentido o que sentiu? Claro que não, mas é uma sensação magnânima, superior e indecifrável. E se ela é mais experiente do que eu? E se aquele truque na cama, ela aprendeu com aquele ex-namorado que eu detestava? Vou imaginar ele se gabando no meu ouvido, dizendo que tudo isso ele já fez com ela. Por que não sabemos lidar com isso? É uma tormenta infantil, desnecessária e irracional. Renato Russo já tinha a resposta: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração”.
Ainda acho que o melhor é deixar tudo naquele lugar chamado passado. Começar uma história do zero e ter a consciência de que as experiências passadas ajudaram a construir a pessoa pela qual você se apaixonou. Ela não é apenas um rosto, uma boca, uma atração física, ou uma boa conversa, coberta de afinidades envolventes. Não. Cada pessoa traz consigo uma história de vida, com emoções sentidas, decepções sofridas, alegria e tristeza, lapidando sua essência, transformando o caráter e a conduta com o passar dos anos. No entanto, basta um primeiro beijo entre ambos, que surge uma nova jornada. São duas bagagens, juntas, no mesmo porta-malas do carro, partindo numa viagem a dois, por um caminho ainda não percorrido.
Mesmo assim, a esperança ainda reside na canção. “Déjame imaginar que no existe el pasado y que nacimos el mismo instante en que nos conocimos.” Deixe-me imaginar que não existe o passado, e que nascemos no mesmo instante em que nos conhecemos.


(Texto retirado do Blog da Isabela Freitas)


Nenhum comentário:

Postar um comentário